O que Xi Jinping planeja para o futuro da China?

Agricultura e economia foram alguns dos temas tratados na tradicional Plenária do Partido Comunista Chinês, que ocorreu na última semana. Um dos pontos que mais chama a atenção são os planos de Xi Jinping de realizar uma profunda reforma do sistema agrário. Entre as medidas que os chineses apostam para o futuro está a autossuficiência alimentar. Confira um trecho da conversa que tive com Ale Delara, diretor da Pine Agronegócios, sobre os possíveis impactos no Brasil e no agro:

O que você espera nas ações de Xi Jinping na economia com repercussão para o Brasil e para o agro brasileiro?
Sim, a China tem um desafio muito grande, principalmente neste ano, porque a base de comparação para o crescimento do PIB pegou uma base muito alta, que foi o crescimento de 5% do ano passado. E há alguns problemas muito importantes que o Xi Jinping tem que resolver. Entre realizar inflação, ele tem que causar inflação na economia chinesa, está sendo um desafio. A China vem com deflação já no PPI, que é a inflação ao produtor no último indicador publicado pelo setor de estatística lá da China. E esta deflação se deve a uma grande capacidade industrial que a China não consegue reduzir. A população está aumentando sua poupança e está consumindo pouco, e nós podemos ver esse reflexo no setor imobiliário chinês. Para o agronegócio, acaba sendo importante, porque a China foi o maior comprador de produtos aqui do Brasil, é uma questão de financeira da própria China. Ainda mais quando nós olhamos que, com esses desafios, já que há uma crise de confiança do consumidor, a China precisaria exportar esse excedente industrial para países compradores como Estados Unidos e Europa, mas com a provável vitória de Donald Trump. O Joe Biden mesmo, ainda na presidência, colocou taxas novas, a Europa está colocando taxas novas e as exportações chinesas para o Ocidente acabam ficando mais complicadas. Então, esse é um cenário favorável ao Brasil que pode ser ancorado nessa meta de crescimento chinês, mas de uma vertente um pouquinho diferente de um canal um pouco diferente do planejado inicialmente.

Vem aí uma intensificação da guerra comercial dos Estados Unidos em relação à China, com qual efeito colateral para o Brasil?
No primeiro mandato de Donald Trump, assim que a China assinou um acordo com os Estados Unidos que ficou conhecido a implantação da primeira fase do acordo, a China reduziu as tarifas, por exemplo, da importação de soja, que nos Estados Unidos eram de 25% e igualou a tarifa brasileira de 10%. Isso deveria fomentar as exportações norte-americanas. Não aconteceu porque o Donald Trump assumiu, acabou elevando as tarifas e entrou em guerra com algumas empresas listadas na bolsa norte-americana, e a China olhou para o Brasil. E o Brasil acabou se beneficiando deste cenário, mas esse foi o primeiro mandato de Donald Trump. Agora nós vimos o Joe Biden colocando algumas tarifas, inclusive de veículos elétricos, que é um dos grandes produtos que a China tem enviado ao exterior, uma tarifa, que chegará a 100% até o fim deste ano. E, na última semana, foi noticiado que o Trump poderia elevar em até 60% as tarifas de produtos chineses. Em uma entrevista, o Trump disse que não falou isso, que é de 50%, o que particularmente acho que não resolve grande coisa numa medida de proteger a economia americana. Isso causa uma provável retaliação da China. E nós vemos isso acontecendo agora porque as exportações de soja norte-americanas para a próxima temporada 24/25 estão a um terço do que foi no ano passado. São as vendas mais baixas dos últimos 23 anos. Enquanto isso, o Brasil segue exportando grandes volumes. As exportações nossas de soja, que deveriam ser menores, já estão no mesmo ritmo do ano passado e nós não temos toda esta soja. E outro detalhe que é muito bom para nós vermos é que as exportações de algodão também cresceram muito esse ano. O Brasil se tornou o maior exportador de algodão e o nosso comprador é a China. Então, a China realmente tem olhado para o Brasil, ela tem usado os Estados Unidos como fornecedor pontual, mas eu ainda teria algumas dúvidas para emplacar esse cenário porque numa das entrevistas que o Trump deu na semana passada ele disse que é amigo de  Xi Jinping. Então possivelmente ele possa se aproximar da economia chinesa, não implantar as tarifas como o mercado ventila essa possibilidade, falou contra Taiwan dizendo que Taiwan tem que pagar pela proteção norte-americana, então pode-se entender: será que não é uma carta-branca para a China poder agir contra Taiwan? Então, existem essas dúvidas baseadas nas últimas falas de Donald Trump com relação à China e também com relação à Rússia.

Qual é a mensagem principal que tem que ficar para a nossa audiência?
O Xi Jinping ele está trabalhando realmente olhando o futuro da China, tanto que já há alguns anos agora ele só reforçou essa visão de que eles têm que reduzir a dependência do mercado internacional. Então, para o Brasil, nós temos que ficar de olho, não já imediatamente, mas para os próximos anos isso deverá trazer algum impacto porque há três ou quatro anos o país anuncia que vai elevar a produção de alimentos. Nós já vimos eles liberando sementes geneticamente modificadas de milho, já há um bom volume sendo produzido neste sentido. Na última semana, eles anunciaram medidas para recuperar terrenos urbanos degradados com excesso de sal com tecnologia que já está sendo testada para aumentar essa produção agrícola no país, já que eles têm uma área agricultável muito pequena, em torno de 11% do território. Então, para o Brasil, nós teremos no curtíssimo prazo um cenário muito vantajoso com possível aumento das exportações, como nós vimos com o milho no protocolo fitossanitário assinado em 2022, recorde de exportação de soja, o algodão indo muito para lá, açúcar indo muito para lá. Mas, no médio prazo, talvez já em 2025, nós possamos ver algum reflexo em alguns produtos com essa elevação da produção agrícola da China.

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